terça-feira, 19 de setembro de 2017

Religio Cordis

Sabendo do caráter cristão deste blog, muitos devem estar se perguntando qual é o vínculo entre martinismo, rosacrucianismo, metodismo, misticismo e pietismo (todos eles sendo movimentos sobre os quais já falamos por alto aqui). A resposta é simples: A Religio Cordis (religião do coração). 


A ideia de que a religião não deveria se restringir a um assentimento intelectual para com determinado conjunto de doutrinas, ou mesmo a observância de certos rituais, práticas, restrições e/ou dias festivos. A religião precisava ser realmente transformadora de todo o ser do devoto e, consequentemente, transformadora de todo o corpo social. Esses eram os místicos, que nada tem a ver com feitiçaria ou coisas do tipo como muitos pensam. Os místicos eram aqueles que desejavam essa união íntima e completa com o Criador. Vemos a definição de misticismo no Dicionário PRIBERAM como:

"mis·ti·cis·mo 
substantivo masculino
1. Crença na possível comunicação entre o homem e a divindade.
2. Vida contemplativa.
3. Devoção exagerada.
4. Tendência para acreditar no sobrenatural."

Assim sendo, podemos ver que são místicos muitos que nem conseguíamos imaginar e que nem os próprios, por preconceito, aceitariam o rótulo de místicos. Os pentecostais, quakers, carmelitas, franciscanos, pietistas, metodistas, martinistas, rosacruzes todos fazem parte de movimentos internos do cristianismo para recuperar a sua mística. John Wesley, Charles Wesley, São Francisco de Assis, São João da Cruz, Santa Teresa D´Ávila, William Law, Juliana de Norwich, Swedenborg, Phillipp Jacob Spener, Arndt, Zinzendorf, Louis Claude de Saint-Martin, Jacob Boehme, Thomas à Kempis e até mesmo Martinho Lutero. Todos foram grandes místicos cristãos ou sofreram forte influência do misticismo e do seu conceito de religião do coração.

Existe misticismo apenas no cristianismo? Certamente que não. O sufismo é um clássico exemplo do misticismo islâmico, os bhaktas do hinduísmo são sublimes místicos, o taoismo em si é profundamente místico, o judaísmo também produziu os seus místicos. Como no caso cristão, muitas vezes os místicos rejeitaram este rótulo por conta da perseguição ou do mau uso do termo místico, sendo usado como se fosse a busca por poderes sobrenaturais ou algo que precisasse ser inacessível para as massas, sendo possível apenas para uma elite eleita que seria dotada dos mais profundos conhecimentos. John Wesley mesmo era um caso de alguém profundamente místico, não apenas pela sua religião do coração, mas também é fácil de percebermos isso ao constatarmos quem foram as pessoas que influenciaram em seu ministério e formação (William Law, Peter Boehler, Zinzendorf,  Thomas à Kempis, ...), porém ele tinha problemas com o irracionalismo de certos místicos e com a linguagem que julgava desnecessariamente complexa de outros como Jacob Boehme.


A religiosidade externa é aquela que vemos cotidianamente quando as pessoas não pisam na Igreja salvo para realizar determinados sacramentos (especialmente o batismo), sem nem ao menos saber o significado dos mesmos e transformando os mesmos em mero evento social ou em superstição. É essa religiosidade superficial que os místicos atacaram. Evidentemente, isso não quer dizer que os místicos se opuseram aos sacramentos ou a religião organizada, alguns até fizeram isso, porém em geral eles queriam que a religião fosse algo mais profundo do que mera convenção social.

A maior participação dos leigos, a busca pela santidade (vida piedosa), sentir a Deus no seu coração, transformar o indivíduo para transformar a sociedade, entender as Sagradas Escrituras através do Espírito e não da mera letra (II Coríntios 3:4-10), perceber a presença/sinais de Deus na criação/mundo/natureza, etc.

Que nosso coração seja inflamado pelo Espírito Santo de Deus para vivermos a verdadeira religião.


Sugestões de leitura:
O Diário de John Wesley (Arte Editorial)
William Law - O Espírito de Oração (Editora Sal Cultural)
Roger Olson & Christian Collins Winn - Reconsiderando o Pietismo (Editora Sal Cultural)
Jacob Boehme - Aurora Nascente (Editora Polar)
Jan Amos Comenius - O Único Necessário (Editora Pentagrama)

Philipp Jacob Spener - Pia Desideria (Editora Encontrão)
Thomas à Kempis - A Imitação de Cristo

Louis Claude de Saint-Martin - O Templo do Coração (AMORC)

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